A urina percorre o mesmo caminho que o esperma, ou seja a uretra. Apesar disso é impossível urinar e ejacular ao mesmo tempo, pois quando se dá a ejaculação o orificio de saída da bexiga contrai-se e fecha automáticamente. Portanto, mesmo que a bexiga esteja cheia, a ejaculação acontece sem que haja emissão de urina.
Educação sexual no Jardim de infância
Repercussões na criança do J. I. na implementação de um Projecto de Educação Sexual
Elaborado pela Educadora de Educadora de Infância, Luísa Carvalho
Introdução:
A fundamentação e implementação de um projecto em educação sexual no Jardim de Infância nasceu no decorrer da disciplina de Projecto, no âmbito do curso de Qualificação para o Exercício de outras funções educativas, na área de organização e desenvolvimento curricular, sob a orientação do Professor Doutor José Brites Ferreira.
O Jardim de Infância é um local privilegiado no processo de educação de cada ser humano (criança), onde a vivência e «aprendizagem» da sexualidade se constrói, não fosse, a sexualidade uma dimensão importante da nossa personalidade tendo um papel fundamental na nossa construção, enquanto indivíduos, pois como seres sexuados temos um corpo, vivemos e trocamos afectos e ao construímos uma psique tornamo-nos seres sociais.
No Jardim de Infância (e não só), o processo de educação e de formação sexual não se deverá limitar à instrução, mas antes assumir-se como um facilitador da aceitação positiva da própria identidade sexual, desligado de elementos discriminatórios de género e da promoção de uma vivência equilibrada das relações interpessoais. Para tal, este projecto teve os seguintes objectivos:
• Averiguar os conhecimentos informais sobre a educação sexual, por parte da criança;
• averiguar o grau de desenvolvimento de valores e atitudes positivas face à sexualidade após a implementação do projecto.
A educação sexual tem, obrigatoriamente, de estar em consonância com as várias dimensões da sexualidade. Por isso, terá de ter em conta, as dimensões afectiva, biológica, ética, psicológica e sociológica. Todas estas dimensões são importantes, essenciais e encontram-se interligadas, constituindo-se numa configuração.
A afectividade é essencial na formação da identidade global, do auto -conceito, da auto – estima, das competências e, de forma geral, do bem estar emocional do indivíduo.
A dimensão biológica é indissociável da educação sexual, uma vez que é impossível conceber, e portanto compreender, uma sem a outra.
A ética regula a forma como os indivíduos compreendem e vivem a sua sexualidade, mediando as decisões pessoais nas relações com os outros e na construção de valores morais e pessoais.
A dimensão psicológica, a qual tem em conta o desenvolvimento do indivíduo como ser sexuado ao nível da construção da identidade e na definição dos papéis de género.
A abordagem dos relacionamentos interpessoais num padrão afectivo e de mudança social, a qual só será possível graças à inovação educativa, espelhando a dimensão sociológica deste processo.
A implementação da educação sexual em meio escolar sempre esteve envolta em dúvidas e polémicas. Uma das questões prende-se com o quando iniciar este processo. Segundo Sampaio (1987) “descobriu-se que são feitas mais perguntas sobre sexo por crianças, do que propriamente por adolescentes” (ver página), correspondendo à necessidade e utilidade da implementação de um projecto desta natureza. Por outro lado, surgem receios associados a mitos que atribuem à educação sexual um papel de facilitador ou incentivador de actividade sexual e que desencadeariam situações de promiscuidade e de perversão, quando a realidade nos mostra o contrário.
Procedimentos Metodológicos:
O estudo de caso foi a metodologia utilizada, a qual se classifica como uma metodologia de cariz qualitativo.
A amostra foi constituída por 14 crianças com idades compreendidas entre os 5 e os 6 anos, 10 crianças do sexo masculino e 4 do sexo feminino. Duas destas crianças têm necessidades educativas especiais.
Os dados foram recolhidos através de fichas de registo individuais e desenhos, que procuravam verificar o grau de interesse, conhecimentos informais e tipo de vocabulário.
Foi colocada uma caixa de perguntas à disposição das crianças para verificação das suas concepções e para promover o envolvimento da família, pois a pergunta colocada pela criança era, também, remetida à família.
Antes da implementação efectiva do projecto, foi convocada uma reunião com os pais e mães para apresentação do projecto (temas, subtemas, as actividades e objectivos).
O processo de recolha de dados deu-se em três fases, sendo a informação recolhida, sujeita a uma análise de conteúdo.
Numa primeira fase procurou-se estimular nas crianças a detecção de diferenças fisiológicas entre homens e mulheres (identidade sexual) e diferenças nas suas preferências (papéis de género). Para tal, foi utilizado o registo descritivo (fichas) e o desenho.
Numa segunda fase, e apesar de não se terem efectuado registos, estimulou-se nas crianças, a procura das suas “origens”, ou seja, a dimensão biológica foi, nesta fase, central.
Na terceira fase, foi abordada a reprodução através da “caixa de perguntas”, em que as respostas das crianças e dos pais assumiram um papel fundamental, não só para o “diagnóstico” de dúvidas e da informação que detinham, mas para a construção de uma “história colectiva”, a qual visava enquadrar a reprodução num contexto individual, relacional, social e biológico. Apesar, deste tipo de abordagem contribuir, em parte, para a manutenção de um modelo familiar exclusivamente heterossexual.
Os dados foram analisados e interpretados através de quadros de leitura, previamente elaborados, com os registos das crianças. Posteriormente, relacionaram-se as perspectivas das crianças com as fontes bibliográficas.
O resultado da análise dos dados da primeira fase encontram-se expressos em palavras e/ou expressões (quadro 1) que distinguem os homens e as mulheres consoante o sexo de pertença e papeis de género. No quadro 2, também se encontram presentes as expressões utilizadas pelas crianças para descreverem as diferenças entre homens e mulheres naquilo que mais apreciam fazer (papéis de género).
Quadro 1
(Diferenças homem/mulher)
Mulher “pipi”
“paposeco”
“farfolha”
“pelda”
“Têm bebés na barriga”
“Maminhas grandes”
“Pintam o cabelo”
“Maquilham-se”
Homem “Têm muitos pêlos no peito”
“pombinha”
“Têm pilinha”
“Usam bigode”
“São fortes”
“Toureiam touros”
“Não vão à casa de banho das senhoras”
Quadro 2
(O que os Homens / Mulheres mais gostam de fazer)
Homens “Tratam das vacas”
“Fazem casas”
“Capeiam touros”
“Pescam nas lanchas”
Mulheres “Tratam da casa”
“Fazem comida”
“Tratam dos filhos”
“Andam com os filhos ao colo”
“São enfermeiras”
“São professoras”
O quadro 3 apresenta a análise das respostas dadas pelas crianças à dimensão biológica / reprodutiva. Dados esses que foram recolhidos quando foram sujeitos à pergunta – estímulo: «Como nascem os bebés» e «Como os bebés foram parar à barriga das mães». A mesma pergunta – estímulo foi colocada ao pai e/ou mãe da criança. As respostas encontram-se no quadro 4.
Quadro 3
«Como nascem os bebés» e «Como os bebés foram parar à barriga das mães»
“ Já está lá dentro”
“ A mulher come muito e faz o bebé ficar grande”
“ A mulher fica mal disposta, vomita e fica grávida depois o bebé cresce”
“ Está dentro da sementinha da mãe”
“ A mãe come uma sementinha. Depois come muito e a sementinha cresce e fica o bebé”
“ O doutor faz um buraquinho na barriga e bota a sementinha, cose e o bebé cresce”
“ A sementinha do pai foi parar à barriga da mãe, juntou-se com a da mãe e fica um bebé
“Os pais namoram, depois o bebé vai parar dentro da barriga da mãe”
“Os homens abraçam as mães. A sementinha entra pelo cú e vai lá para dentro. É igual às vacas que eu já vi.”
Quadro 4
Respostas do pai e/ou mãe
“ O pai e a mãe têm sementinhas”
“ A sementinha do pai junta-se à da mãe e faz um bebé”
“ O pai passa a sementinha à mãe para a barriga e faz um bebé”
“ O pai encosta à mãe e passa a sementinha e nasce um bebé”
“ O pai abraça a mãe e a sementinha vai lá para dentro”
“ Os pais deitam-se, namoram, fazem festinhas”.
“A sementinha sai e junta-se à da mãe, faz o bebé”
Respostas pouco elucidativas
“ Fazem sexo”
“ O homem faz amor com a mãe e depois o bebé nasce”
“ A mãe não sabe dizer. É para tu dizeres”
“ A mãe disse que foi uma garça que me trouxe. Mas não é verdade”
“ A mãe disse que os bebés já lá estão”
Ainda, relativamente à terceira fase, as crianças e os(as) respectivos(as) pais e/ou mães foram sujeitos(as) à pergunta – estímulo: «Como os bebés saem da barriga da mãe?». Os quadros 5 e 6 apresentam as respostas respectivas.
Quadro 5
«Como os bebés saem da barriga das mães» - Respostas das crianças
“ Não sei. Mas é no hospital”
“ O doutor faz um buraco na barriga e o bebé sai”
“ O doutor tem uma máquina de tirar bebés, é uma televisão. Ele vê onde está o bebé e depois corta a barriga”
Quadro 6
«Como os bebés saem da barriga das mães» - Respostas dos pais e das mães
“ O doutor fez um corte na barriga da mãe e tirou o bebé”
“ O doutor é que tira os bebés”
“A mãe não disse”
“ Pergunta à professora”
“ Quando são pequenos saem pela vagina, se são grandes o doutor faz um corte”
Finalmente, foi construída, colectivamente, uma história, a seguir transcrita, com informações a que tiveram acesso durante todo o processo educativo:
“ A Nélia e o Manuel namoravam e queriam casar e ter um bebé.
Vão para o quarto, encostam-se um ao outro e abraçam-se, fazem festinhas, dão beijinhos. Eles gostam um do outro.
O pénis entrou pela vagina da mãe. A sementinha do pai foi ter com a da mãe. As sementinhas do pai chamam-se «espemazoides» (espermatozóides).
Eu sei onde estão eles escondidos …num sítio muito especial… é os testículos aquele saquinho debaixo do pénis que o (O) não sabia que tinha.
As sementinhas fazem uma corrida, a que bate primeiro no óvulo que é a sementinha da mulher ganha e faz uma magia, e não deixa mais ninguém entrar.
A Nélia ficou grávida de um bebé… Depois fez um bebé muito pequenino do tamanho de um grão de arroz. Depois fica do tamanho de um apara-lápis e depois vai sempre ficando maior. Ele vive dentro de um «saquinho de água quente», parece um «aquário». Mas não é um aquário, tem a forma de uma pêra e é especial - O nome é útero.
Ele come pelo sangue da mãe. O sangue da mãe vai para o bebé e do bebé para a mãe, numa pele. Não é uma pele é um cordão que vai do útero da mãe ao umbigo do bebé.
Depois a barriga foi crescendo e a Nélia ficou a andar devagarinho e com a mão assim” (apoiando a mão entre as costas e a cintura).
Ela anda devagarinho porque o bebé quer nascer. As pernas ficam abertas porque os ossos estão a alargar para o bebé ter espaço pela vagina. Depois o Manuel telefonou para a ambulância vir buscar a Nélia. Levaram ela para o hospital e depois tiraram o bebé. O bebé saiu pela vagina, era pequeno senão… Tinha que sair pela barriga. O doutor corta um pouquinho, tira o bebé e cose outra vez. Quando o doutor disse que a Nélia já podia ter alta, foram para a sua casa e o marido ajudava a Nélia a tratar do bebé, dar banho, mudar as fraldas coisas assim.”
Resultados:
Antes da implementação deste projecto, nenhuma das crianças sabia o nome correcto dos órgãos genitais, quer masculinos quer femininos.
Todas as crianças sabiam a que sexo pertenciam. Aliás, os conceitos de identidade sexual (auto - classificação: menino ou menina ou homem / mulher) e tipificação de género são distintos, nestas idades não os distinguem, classificando-se como um todo, a partir de características de construções sociais.
O conceito demonstrado pelas crianças das características masculinas e femininas é consonante com os estereótipos de género: o masculino associado à robustez/força e actividade física e o feminino em relação à orientação para família, casa/filhos, atributos que valorizam a expressão dos afectos, sensibilidade e relacionamento interpessoal.
Para a maioria das crianças, os homens não têm participação activa no processo de fecundação. Apenas três crianças mencionam a intervenção do pai.
As crianças demonstraram consciência de que os bebés nascem nos hospitais e as mães são assistidas por médicos.
Relativamente às respostas dadas pelos pais e/ou mães aos filhos(as), conclui-se que ambos os progenitores afirmam que possuem “sementinhas” (células sexuais); esclarecem os(as) filhos(as), numa dimensão afectiva ou objectiva, de que há uma passagem de células sexuais do pai para a mãe e que é a união de ambas as células que dá origem a outro ser. No entanto, nenhum dos pais os informou do processo (como se dá a passagem das células masculinas para o interior da mãe).
Apesar do envolvimento de todas as famílias neste projecto, notou-se que há famílias que ainda não se sentem preparadas para responder aos(às) filhos(as) de forma assertiva e congruente.
Na fase final do projecto constatou-se que já havia alguma congruência nas respostas, embora em alguns casos se note resistência e desconforto no que diz respeito a falar com os(as) filhos(as) sobre sexualidade. Aliás, a própria família, por influência das crianças rectificou o vocabulário, utilizando os termos correctos ao designarem os órgãos genitais femininos.
O grau de desenvolvimento de valores e atitudes positivas face ao projecto é apresentado de forma explícita ao elaborarmos a nossa história.
Assistiu-se à evolução, nas crianças quer ao nível da linguagem, quer ao nível dos conceitos utilizados.
Quase todos quiseram participar na elaboração da história de forma a revelar os conhecimentos adquiridos. As atitudes das crianças perante a descrição da história revelou interesse e concentração uma vez que quando alguma criança não utilizava o termo correcto havia sempre uma outra para corrigir ou completar.
Conclusões:
Não sendo generalizáveis, os resultados obtidos foram animadores, pois verificaram-se lacunas ao nível da recolha final dos dados, devido à limitação do tempo disponível.
As crianças revelaram interesse pelo projecto, sensibilização para os valores e atitudes face à sexualidade e interesse pela reprodução na «caixa das perguntas».
Para os meninos o foco de interesse foi «a grande corrida», denominação do percurso dos espermatozóides até ao óvulo.
Para as meninas o que mais as fascinou foi a gravidez e o parto.
Foi um percurso que se revelou fértil em implicações pedagógicas, tanto ao nível da minha formação pessoal como profissional, porque me consciencializou para uma diferente forma de abordar e implementar o tema, assumindo uma perspectiva multidimensional e transversal na actividade pedagógica.
As repercussões não se deram apenas ao nível das crianças em causa, mas também nas famílias que estavam envolvidas no processo (alteração do vocabulário, valores e atitudes positivas face ao mesmo).
Por iniciativa de alguns pais, em parceria com a Junta de Freguesia sugeriu-se uma exposição dos trabalhos das crianças, que englobam as concepções, desenhos, modelagens e pinturas inerentes ao projecto.
Perspectivas:
O sucesso de futuros projectos depende, em grande parte, da realização de estudos sobre a pertinência e eficácia das diferentes metodologias utilizadas na educação sexual ao nível do jardim-de-infância e futuras investigações a fim de conhecer as repercussões noutras crianças.
A implementação de projectos nesta área ganhará qualidade com a realização de estudos que determinem estratégias de formação para profissionais de educação, ao nível da educação sexual.